Ainda durante o mestrado na França, decidi que queria aprender inglês. Minha mãe, sempre solícita, lembrou de uma amiga que morava na Inglaterra. Perguntei se ela poderia conversar com essa amiga sobre a possibilidade de eu passar uns dias em Londres para estudar. Elas se falaram, e pouco tempo depois, eu estava com as malas prontas para um curso de trinta dias na cidade.
Fui para Londres cheia de entusiasmo, mas também exausta da imersão total na cultura francesa. Lembro até hoje da sensação acolhedora que tive ao chegar na casa da amiga da minha mãe. Lá dentro, tudo era como se estivéssemos no Brasil: o cheiro da comida, as conversas, o jeitinho familiar de viver. Mas bastava sair à rua para mergulhar no cotidiano inglês. Era como habitar dois mundos.
Depois de tanto tempo sozinha, submersa em outra cultura, aquele pequeno universo me devolveu um pedaço de mim. E isso acontece com frequência quando se mora fora: há momentos em que não conseguimos pertencer de verdade ao lugar onde estamos.
Curiosamente, no meu caso, esse sentimento era um paradoxo. Sempre me senti em casa na França — e até hoje sinto que pertenço àquele país. Mas, naquela fase, mesmo com esse pertencimento, eu não era feliz.
Na rotina da casa, no cotidiano simples, fui tomada por um desejo profundo: queria construir uma família daquele jeito, com raízes brasileiras, com leveza e respeito mútuo. Eu via tantos casais interculturais ao meu redor enfrentando conflitos difíceis… E, confesso, morria de medo de viver o mesmo.
Os anos passaram e, como o universo parece sempre escutar os desejos que vêm do coração, dois anos depois conheci um rapaz brasileiro, durante uma breve visita ao Brasil. Ele acabou me reencontrando na França, e tentamos construir a vida ali. Mas ele não se adaptou. Depois de algum tempo, mudamos para a Irlanda.
Nada foi fácil para mim naquele início. Eu mal falava inglês, me sentia diminuída, perdida, sem forças.
Mas o tempo passou. Nossas filhas nasceram. E foi quando começaram a falar — e o faziam somente em inglês — que me deu um estalo. Busquei orientação, e uma amiga, fonoaudióloga e bilíngue, me indicou o método “one parent, one language”. Assim, decidimos: em casa, falaríamos apenas português. O inglês viria naturalmente do ambiente ao redor.
Naquele momento, me dei conta — mesmo sem entender tudo que estava por trás — que eu havia cocriado, anos depois, exatamente aquele cenário que um dia desejei em Londres: uma casa onde se fala português, um mundo lá fora onde reina o inglês.
Os anos passaram e, hoje, nossas filhas são completamente bilíngues. Mas, nesta manhã, indo para a escola, uma delas me perguntou: — Mãe, você já reparou que, quando a gente fala português na rua, ninguém entende a gente?
Respondi com um sorriso: — Sim, meu amor. Esse é o nosso idioma, o idioma da nossa casa.
Ela pensou um pouco e disse: — Então vamos falar inglês na rua.
E assim fizemos. Falamos inglês durante todo o caminho até a escola.
Na volta, sozinha, percebi com o coração apertado que o idioma que ainda me conecta às minhas raízes está, pouco a pouco, ficando restrito ao ambiente familiar. O português virou meu refúgio, minha ponte com a minha terra natal.
Ser expatriada tem suas alegrias, claro — é fruto de uma escolha. Mas também deixa marcas. Marcas sutis, quase invisíveis, mas profundas. Marcas de quem ama dois lugares ao mesmo tempo e, às vezes, sente que não pertence inteiramente a nenhum deles.
