Do Home Office à prisão invisível: como o trabalho pós-pandemia está adoecendo em silêncio o trabalhador.

Nos últimos dias, venho refletindo sobre o que aconteceu com a casa, o lar, o espaço de moradia das pessoas.
Esse lugar que deveria ser sinônimo de descanso, família e afeto.

Mas que, durante e após a pandemia de Covid-19, também se transformou em escritórios improvisados, salas de reuniões virtuais e call centers silenciosos.

O que se apresentou como um novo paradigma social, algo que prometia liberdade, por reduzir distâncias, flexibilizar estruturas e facilitar o convívio familiar, sustentado pela famosa frase “posso trabalhar de onde quiser”, acabou vindo acompanhado de um outro lado: o da desconfiança dos empregadores.

E assim, esse cenário que parecia libertador foi, aos poucos, se convertendo em uma prisão invisível : uma prisão feita de controle de minutos, métricas e vigilância digital.

O novo modelo de controle. Antes, as empresas controlavam corpos dentro de escritórios. Hoje, controlam o tempo, e até os segundos, dos trabalhadores.

O home office prometia flexibilidade, mas trouxe hiperdisponibilidade.

A mesa da cozinha virou posto de trabalho.

O celular virou crachá digital.

E, junto com isso, uma nova lógica: não importa se você está em casa, importa se está “online”, presente, disponível.

O custo invisível para o trabalhador.
As empresas economizam espaço, aluguel e infraestrutura. Mas quem paga a conta?

Internet, energia, cadeira, ambiente silencioso, tudo agora é responsabilidade do trabalhador.

O lar se transforma em “filial da empresa”, sem o reconhecimento financeiro desse investimento.

O efeito silencioso: autovigilância
Talvez o mais perverso não seja o controle externo, mas o interno.

O trabalhador passa a medir sua própria produtividade.

Vive no medo de não parecer suficientemente ativo.

Entra num ciclo de autovigilância e autocobrança que corrói saúde mental e bem-estar.

Isso tem nome: adoecimento do trabalho digital.

Impactos sociais e pessoais.

Ansiedade e burnout crescem silenciosamente.

Famílias sofrem com a fusão de papéis: mãe, profissional, esposa, filha, tudo acontecendo ao mesmo tempo, no mesmo espaço.

A sociedade assiste a casas que deveriam ser lares se tornarem extensões precárias de empresas.

O futuro precisa ser diferente.
O modelo atual não é sustentável. Talvez estamos entrando em uma fase que seja necessário repensar o trabalho remoto:

Eu acredito em modelos híbridos conscientes, que respeitem os limites humanos.
Mas não estamos falando apenas de estruturas físicas, é preciso repensar também a confiança depositada no trabalhador, pois é justamente ela que está em jogo.

Quando o controle passa a ser medido em minutos trabalhados e em tempo de exposição diante da máquina, significa que, mais uma vez, o capitalismo reinventou suas formas de vigilância, agora em sua versão mais sutil e cruel.

Usa o próprio ambiente que antes representava o descanso do trabalhador como instrumento de controle.
Se antes escravizava a mente, agora escraviza também o lar.
E impõe, a todo o conjunto familiar, a convivência diária com a servidão desse trabalhador.

Precisamos de políticas trabalhistas que incluam compensação de custos para quem trabalha de casa.

Cultura organizacional voltada a resultados, não a horas medidas em segundos.

Planejamento sistêmico, que devolva autonomia ao trabalhador e devolva à casa sua função de lar.

Em suma, a pandemia transformou nossas casas. Mas agora é hora de transformar o trabalho. Não podemos aceitar que o espaço da vida se converta em prisão digital.

Que tal refletir: sua casa hoje é um espaço de liberdade ou de controle invisível?

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